As carências emocionais por trás da ingratidão

Pessoas que se dedicam aos outros e recebem como resposta alguns gestos de  ingratidão, tendem a apresentar um elevado sofrimento,  estados de raiva, culpa, tristeza, frustração, chegando a sentir-se incompetentes e responsáveis pelas falhas nas suas relações sociais.

Já se terá deparado, ao longo da sua vida, com atitudes menos amáveis por parte de alguém a quem teve a perceção de ter ajudado. É verdade que algumas pessoas são incapazes de demonstrar um mínimo gesto de agradecimento, amabilidade ou até de respeito por aqueles que de alguma forma se esforçaram por elas. É verdade também que não deveríamos esperar que os outros se mostrem agradecidos por qualquer gesto nosso, se ele foi feito de uma forma desinteressada. Mas de alguma forma, essa acaba por ser a nossa expetativa, e em sentido contrário, surge a frustração e a revolta, o desejo de vingança. Todos aqueles sentimentos destrutivos.

A ingratidão é um comportamento que gera um elevado desconforto a quem o sente, e longe de ser algo isolado, é com alguma frequência, que muitas pessoas se vão deparando com esta atitude, por vezes envolvida até na hostilidade, no seu dia-a-dia. Esta é sempre um posição incómoda e dolorosa para quem a sente.  Esta dinâmica nas relações tende ainda a gerar sentimentos de culpa, levando a um questionamento da pessoa sobre o porque de ter feito algo pelo outro. Mas talvez a culpa deva ser uma emoção a abandonar, quando procura entender algo muito simples: o problema não está em si. Com a ingratidão invalidam-se palavras, gestos e esforços de pessoas significativas à nossa volta. Pessoas que não valorizam, perdem, e a seu tempo, de forma inevitável, haverá um desinvestimento na relação e arriscam receber aquilo que eles próprios projetam, desconfiança, afastamento e hostilidade. 

Não permita que a ingratidão abale a sua estrutura, que destrua a sua capacidade de continuar a amar e a construir relações saudáveis.

Alguns estudos indicam uma série de carências, emocionais e sociais, que poderão estar na base destas dificuldades.

Quando falamos de um «estado», encontramos algumas fases de vida, em que a pessoa pode estar menos recetiva e menos disponível para receber gestos dos outros e por isso, não os aprecia e/ou valoriza. Quadros de depressão, estar num período de luto, estar a passar uma fase mais complexa, podem justificar esta postura temporária. Quando estamos perante uma «característica», então estaremos perante um comportamento  mais estável  e permanente. E aqui a carência poderá situar-se mais ao nível de certos padrões de personalidade, da falta de habilidades interpessoais, da própria cultura e padrões educacionais onde a pessoa se desenvolveu ou se insere, assim como as suas crenças e convicções, onde um padrão de amabilidade ou comportamento pró-sociais não são tão usuais ou considerados,  um défice relacional, baixa empatia, em que a pessoa que recebe determinados gestos usa uma lente diferente daquela que dá. Pessoas pouco empáticas analisam a situação com um maior distanciamento e frieza e possuem uma menor  Inteligência Emocional. Não alcançam a capacidade de apreciar, e receber gestos ou algum tipo de ajuda. Elas simplesmente esperam isso dos outros, algo que pode atingir estados mais disfuncionais ou até mesmo patológicos.

Embora este seja um comportamento passível de ser melhorado, cabe apenas a cada pessoa esta tomada de decisão e interesse na sua própria mudança. Aos outros, cabe apenas a decisão de continuar ou não a dirigir gestos de atenção a essa pessoa, com consciência de eventuais desconfortos gerados, avaliando o que a faz sentir. Com a certeza, porém, de que sendo um comportamento com o qual não se identifica, não terá de o replicar ou manter na sua vida relações que não lhe proporcionam conforto ou reciprocidade.  A quem sente esta dificuldade, é importante ter presente que comportamentos não reforçados, acabam por se extinguir.