Luto não é só perda. É também um processo de reconstrução.

Parece um paradoxo, mas amar é também elaborar lutos. O sofrimento resultante das perdas é o preço a pagar por amarmos tanto. Mas é também nestas perdas que nos transformamos, que aquilo que amamos se transforma. É pela perda que resgatamos a nossa humanidade. E por isso ela é necessária para sinalizar a presença, a ausência, a fantasia, a desilusão, a coragem, o medo, a inibição e a vida. É pela perda que repensamos a saudade como uma oportunidade que o amor nos traz. Com a interrupção do contacto físico, inicia-se um caminho de reconstrução do vínculo que se torna agora simbólico, dentro de cada um. É esta necessidade de nos reencontrarmos com a pessoa que morreu através do amor compartilhado. Um vínculo que passa a ser restabelecido internamente num lugar seguro. Um tempo que se renova, o reconfigurar de um processo que nos leva a uma reconstrução. De nós e do nosso mundo envolvente.

O luto não é só perda. É também um processo de reconstrução e reorganização de nós mesmos.
Se a pessoa trouxe na sua vida amor, alegria, paz, crescimento, força e sentido de vida, então, não é justo que tudo isso tenha morrido com ela. É através desta perceção de valor e de significado que se emerge aos poucos da dor.
A morte coloca-nos, irremediavelmente, diante do mistério da vida. Impõe-nos silêncio, vazio e reflexão. E é desde aí, desde o vazio e da reflexão, da rutura e da crise, a morte ensina-nos a viver.

@ Teresa Alves, Psicóloga

Porque traímos? Um olhar sobre a infidelidade

Porque traímos? E porque é que pessoas felizes traem?

Quando falamos em “infidelidade” o que queremos exatamente dizer?

É uma relação sexual, é uma história de amor, sexo pago, uma conversa online?

Porque é que achamos que os homens traem por aborrecimento e medo da intimidade, mas as mulheres traem devido à solidão e desejo de intimidade?

Será uma traição sempre o fim de uma relação?

Há um simples ato de transgressão que consegue destruir a relação, a felicidade e até mesmo a identidade de um casal: um caso extraconjugal. E no entanto, este ato tão comum é muito mal compreendido.

Este artigo é para qualquer pessoa que já tenha amado!

O adultério existe desde que o casamento foi inventado bem como o tabu contra o mesmo. Aliás, a infidelidade tem uma tenacidade que o casamento só pode invejar, a tal ponto que é o único mandamento que aparece repetido duas vezes na bíblia: uma vez pelo ato e outra apenas por pensar nele. Portanto, como é que reconciliamos o que é universalmente proibido e, no entanto, universalmente praticado?

Ao longo da história os homens tiveram praticamente licença para trair, sem grandes consequências, suportada por inúmeras teorias biológicas e evolucionistas que justificavam a sua necessidade de explorar. Esta duplicidade de critérios é tão velha quanto o adultério em si. A monogamia costumava ser estar com uma só pessoa toda a vida. Hoje, monogamia é estar com uma pessoa de cada vez. Nós costumávamos casar e fazer sexo pela primeira vez. Agora casamo-nos e deixamos de ter sexo com outras pessoas. O facto é que a monogamia não tinha nada a ver com amor. Os homens dependiam da fidelidade das mulheres para saber de quem eram os filhos e quem seriam os seus herdeiros quando morressem.  

Eu gosto particularmente desta definição de caso extraconjugal: uma relação secreta que é o núcleo estrutural de um caso; uma ligação emocional em maior ou menor grau; uma alquimia sexual.

Marcel Proust disse é a nossa imaginação que é responsável pelo amor, não a outra pessoa. E esta é uma teoria que nos obriga a refletir. O certo é que nunca foi tão fácil trair e nunca foi tão difícil mantê-lo em segredo. Nunca a infidelidade exerceu um efeito psicológico tão marcante. Quando o casamento era um contrato económico, a infidelidade ameaçava a nossa segurança financeira. Mas agora que o casamento é um acordo romântico, a infidelidade ameaça a nossa segurança emocional. Ironicamente, costumávamos virar-nos para o adultério – esse era o espaço onde procurávamos amor puro. Mas agora que procuramos amor no casamento, o adultério destrói-o.

Penso que, há, atualmente, três formas pelas quais a infidelidade magoa hoje de modo diferente. Temos um ideal romântico, no qual contamos com uma pessoa para preencher uma lista infindável de necessidades: para ser o melhor amante, o melhor amigo, o melhor pai ou mãe, o confidente fiel, o companheiro emocional, o par intelectual. E eu sou isso, sou a escolhida/o, sou única/o, sou indispensável, sou insubstituível, sou a/o tal. A infidelidade aparece e diz-me que afinal não sou. É a derradeira traição. A infidelidade quebra a grande ambição do amor. Mas se ao longo da história a infidelidade sempre foi dolorosa, hoje é, frequentemente, traumática, porque ameaça a nossa própria identidade.

Mas depois temos outro paradoxo com o qual lidamos nos dias de hoje. Devido a este ideal romântico, confiamos na fidelidade do nosso companheiro com um fervor único. No entanto, nunca estivemos mais inclinados para trair, não por termos agora desejos novos, mas por vivermos numa época em que nos sentimos no direito de ir em busca dos nossos desejos, porque esta é a cultura onde eu mereço ser feliz. E se nos costumávamos divorciar porque eramos infelizes, hoje divorciamo-nos porque podíamos ser mais felizes. E se o divórcio estava antes embrenhado de vergonha, hoje a nova vergonha é escolher ficar quando podemos sair.

Então, se nos podemos divorciar, porque é que continuamos a trair? Bem, a suposição comum é que se alguém trai, ou há algo errado com a relação ou há algo de errado com a pessoa. Mas em milhões de pessoas, não podem ser todas elas casos patológicos. A lógica é a seguinte: Se tens tudo o que precisas em casa, então não há necessidade de procurar noutro sítio [assumindo que existe algo como um casamento perfeito para nos inocular contra estas aventuras].

Mas e se a paixão tiver um prazo de validade? E se houver coisas que até uma boa relação não consegue proporcionar? Se até as pessoas felizes traem, de que é que se trata afinal?

A maioria das pessoas que conheço, a nível pessoal, pessoas com quem trabalho, são, normalmente, profundamente monógamas nas suas crenças, pelo menos para o seu parceiro. Mas encontram-se num conflito entre os seus valores e o seu comportamento. São normalmente pessoas que até foram fiéis durante décadas, mas um dia pisam o risco que pensavam nunca vir a pisar, correndo o risco de perder tudo. Mas para vislumbrar o que? Casos extraconjugais são um ato de traição e uma expressão de desejo e perda. No centro de um caso extraconjugal costumamos encontrar um desejo e anseio por uma ligação emocional, por algo novo, liberdade, autonomia, intensidade sexual, um desejo de recapturar partes perdias de nós próprios ou uma tentativa de restabelecer a vitalidade face à perda e tragédia.

Quando procuramos o olhar de outro, não é necessariamente do nosso parceiro que nos estamos a afastar, mas da pessoa na qual nos tornámos. E não é tanto o estarmos à procura de outra pessoa, mas sim estarmos à procura de outra versão de nós próprios.

No mundo inteiro, há uma palavra que se ouve sempre de quem tem casos extraconjugais: elas sentem-se Vivas. Habitualmente, acompanhadas de histórias de perdas recentes [um amigo que morreu demasiado cedo; a morte de um dos pais; más notícias sobre a sua saúde]. A morte e a mortalidade vivem, normalmente, na sombra do caso extraconjugal, porque levantam questões: É só isto? Haverá mais para além disto? Vou passar os próximos 25 anos assim? Será que vou sentir aquilo outra vez? E faz-me pensar que talvez sejam estas questões que levam as pessoas a pisar o risco e que alguns casos são uma tentativa de passar a perna à mortalidade como que um antídoto para a morte. Contrariamente ao que possam pensar, ter um caso, tem menos a ver com sexo do que com desejo: desejo de atenção, desejo de nos sentirmos especiais, desejo de nos sentirmos importantes. A própria estrutura de um caso, o facto de nunca se poder ter o amante, mantém essa necessidade. Acaba por ser uma máquina de desejo, porque a incompletude, a ambiguidade, faz-nos querer o que não podemos ter. Muitas pessoas pensam que casos extraconjugais não acontecem em relações abertas, mas acontecem. Primeiro de tudo, a conversa sobre monogamia não é a mesma que a conversa sobre infidelidade. A verdade é que mesmo quando temos liberdade para ter outro parceiro sexual, parece que continuamos a ser atraídos pelo poder do que é proibido, que se fizermos o que não devíamos acabamos por sentir que estamos a fazer o que queremos.

Então como é que nos curamos de uma traição? O desejo é profundo. A traição é profunda. Mas pode ser curada. Alguns casos extraconjugais são uma sentença de morte para relações que já estavam a morrer, mas outros despertam novas possibilidades. A verdade é que a maioria dos casais que vivenciaram traições, continuam juntos. Mas alguns irão apenas sobreviver e outros conseguirão transformar essa crise numa oportunidade. Conseguirão transformá-la numa experiência geradora. Penso que, principalmente para o parceiro traído, que normalmente dirá: Achas que eu não queria mais? No entanto não fui eu quem o fez. Mas agora que a traição está exposta, eles também podem exigir mais, e já não têm que manter o status quo que podia nem estar a funcionar assim tão bem para eles.

Muitos casais, no rescaldo de um caso extraconjugal, devido à nova desordem, que pode levar a uma nova ordem, vão conseguir conversar de forma honesta e aberta como não faziam há décadas. E parceiros que estavam sexualmente indiferentes de repente sentem-se tão vorazes de luxúria, mas não sabem de onde isso vem. Algo sobre o medo da perda reacende o desejo e abre caminho para todo um novo tipo de verdade.

Portanto, quando uma traição é exposta, quais são algumas das coisas que os casais podem fazer? Sabemos que a cura começa depois do trauma, quando o infrator reconhece os seus erros. Então, para o parceiro que teve o caso, uma coisa é acabar com o caso, mas outra é o ato essencial de expressar culpa e remorsos por magoar o parceiro. Mas a verdade é que muitas pessoas que traem, podem até sentir-se muito culpadas por magoarem os seus parceiros, no entanto, não se sentem culpadas pelo caso extraconjugal em si. Essa distinção é importante. O parceiro que traiu precisa de ser o vigilante da relação. Precisa de ser, durante uns tempos, o protetor dos limites. É da sua responsabilidade falar, porque se ele pensar no assunto, pode aliviar o parceiro dessa obsessão e assegurar que o caso não foi esquecido. Isso, por si só, começa a restaurar a confiança. Mas para o parceiro traído, é essencial fazer coisas que restituam a sua autoestima, rodear-se de amor, amigos e atividades, que lhe devolvam a alegria, o sentido, a identidade. Mas ainda mais importante é controlar a curiosidade de procurar detalhes sórdidos “Onde estiveste? Onde é que o fizeste? Com que frequência? Ela/e é melhor que eu na cama?” São perguntas que apenas causam mais dor e nos mantêm acordados à noite. Em vez disso, mudem para o que chamo perguntas de investigação, as que exploram os significados e os motivos “O que é que este caso significou para ti? Foste capaz de expressar ou experienciar nele o que já não conseguias comigo? O que sentias quando chegavas a casa? O que é que valorizas na nossa relação? Agrada-te que isto tenha acabado?”

Qualquer traição vai redefinir a relação. E cada casal vai determinar qual vai ser o legado dessa traição. Mas as traições chegaram para ficar e não vão desaparecer. Os dilemas do amor e desejo não produzem respostas simples de preto e branco, de bom e mau, de vítima e infrator. A traição numa relação aparece de muitas formas. Há muitas maneiras de trair um parceiro: com desprezo, negligência, indiferença, violência. Traição sexual é apenas uma das maneiras de magoar um parceiro. Por outras palavras, a vítima de um caso nem sempre é a vítima do casamento.

Eu vejo casos extraconjugais de uma perspetiva dupla: por um lado, mágoa e traição. Por outro, crescimento e autodescoberta ­­­– o que te fez a ti, e o que significou para mim?

Quando alguém vem ter comigo no rescaldo de um caso extraconjugal que foi revelado, costumo dizer-lhe: nos tempos que correm, a maioria de nós vai ter duas ou três relações ou casamentos, e para alguns, serão com a mesma pessoa. O vosso primeiro casamento acabou. Gostariam de criar um segundo juntos?

@ Teresa Alves, Psicóloga 

O que esperar da terapia?

Pensa em marcar a sua primeira consulta de psicologia, mas tem vindo a adiar por não saber o que esperar deste processo, se realmente precisa de acompanhamento psicológico, o que falar na primeira consulta?

Então este artigo, poderá ajudá-lo(a) a desconstruir algumas destas questões.

Em psicoterapia é esperado um processo ativo de autodesoberta, aceitação e mudança. Psicólogo e paciente envolvem-se num compromisso de trabalhar para que o paciente atinja os seus objetivos terapêuticos, supere os seus problemas e/ou sintomas que o levaram a procurar ajuda.

É natural que numa primeira consulta possa sentir alguma ansiedade sobre o que falar, algum desconforto por estar a abordar questões tão pessoais, tantas vezes silenciadas ao longo dos anos, com um profissional que não conhece. Afinal, os assuntos que abordamos com um psicólogo envolvem questões íntimas e é natural que possa sentir inicialmente alguma resistência, vergonha, medo, dúvidas. Contudo, esses sentimentos devem ir diminuindo à medida que há uma continuidade do processo, em que vai comprovando que a fala e a escuta terapêuticas são diferentes daquelas que tem com amigos ou familiares. A relação terapêutica que vai estabelecendo com o psicólogo ao longo do processo é a chave para a sua evolução. Uma relação que se espera de confiança, honesta e segura.

“Quando podemos falar sobre os nossos sentimentos, eles tornam-se menos perturbadores, menos assustadores.” (Fred Rogers)

Um dos aspetos mais interessantes sobre a terapia é que as pessoas procuram respostas e ficam frustradas se não as encontram no imediato. Aquelas que por outro lado, vão em busca de perguntas, sentem-se bem e fazem um ótimo progresso. A terapia ficou conhecida como uma atividade onde encontramos respostas. Em certa parte, sim. Mas encontramos sobretudo muitas e muitas perguntas. O psicólogo não é o profissional que tem todas as respostas para a sua vida, ele tem as perguntas.  Os psicólogos não dão as respostas, primeiro porque não tem as suas respostas e em segundo lugar, porque interessa-lhes que seja você a aprender o raciocínio.  Em terapia criam-se as respostas. Não sabemos o que  é melhor para si, é você quem sabe. Nós, psicólogos, somos aqueles que o guiam e ajudam a reconhecer os seus potenciais, os seus recursos, crenças, as suas fragilidades, e a usá-las de uma forma adequada e segura para si, para chegar ao que é melhor para si. A ideia de que o psicólogo tem as respostas de antemão é errada, ele tem sim as perguntas. Isto porque estuda a mente, o comportamento e organiza-se para ajudar tudo isso a funcionar. As perguntas são os recursos. Sem elas não há terapia.

1. Quando devo consultar um psicólogo?

Pode simplesmente experimentar fazer terapia sem esperar sentir-se doente ou porque tem percebido e observado alguns sinais e sintomas que parecem começar a ficar fora do seu controlo, geradores de desconforto e mal-estar permanente. Embora sejam estes últimos os motivos pelos quais a maioria das pessoas recorre à terapia, existem outros igualmente legítimos, nomeadamente a procura numa ótica de prevenção de doenças do foro psicológico, de desenvolvimento pessoal, cujo objetivo é a melhoria da qualidade de vida.

2. O que esperar da consulta de psicologia?

Acolhimento: Independentemente do tipo de abordagem utilizada pelo psicólogo, irá sentir-se acolhido, ouvido e respeitado nas suas narrativas;

Confidencialidade: O psicólogo está abrangido pelo dever da confidencialidade, pelo que todo o conteúdo das sessões ficará em sigilo do profissional;

Ausência de julgamentos: O psicólogo é um profissional que está ali para o ajudar, não tendo consigo qualquer vínculo familiar e/ou social, adota uma postura neutra, não emitindo quaisquer juízos de valor ou julgamentos. O objetivo é a identificação das questões a trabalhar ao longo do processo e as suas necessidades.

Prática baseada em evidência: A psicologia é uma ciência. Portanto, todo o processo psicoterapêutico segue procedimentos e técnicas estudadas e validadas cientificamente através de uma vasta investigação. O psicólogo rege a sua conduta por um código de ética rígido e não irá emitir opiniões pessoais, tecer qualquer tipo de críticas ou fazer por si escolhas e tomadas de decisão. Toda a conduta do psicólogo e qualquer pontuação, diagnóstico e tratamento seguido será sempre baseado em evidências científicas.

Da sua parte, é esperado um compromisso com este processo. Uma vez iniciado o acompanhamento, é importante que vá aumentando o seu compromisso com a terapia, a assiduidade às consultas, o à vontade com o seu psicólogo. Não encarar a consulta como mais uma tarefa obrigatória do seu dia, ou como um sacrifício, mas sim como uma hora e um espaço de autocuidado, de investimento em si, no seu bem-estar, na sua saúde.  Este será sempre um espaço seu. Na primeira consulta e seguintes terá oportunidade de expor todas as suas dúvidas ao seu psicólogo, terão oportunidade de discutir a frequência das consultas, e demais questões que envolvem um processo desta natureza. É importante que vá comunicando ao seu psicólogo possíveis desconfortos, para que juntos os possam ultrapassar. O processo terapêutico não se extingue naquela hora de consulta, o que se trabalha em terapia deve ser motivo de reflexão no seu dia-a-dia, nas suas atividades, onde terá oportunidade de ir testando novas ferramentas, habilidades e ganhos da terapia, para traçar o seu caminho de mudança.

É fundamental saber esperar pelos resultados. Não espere resultados imediatos, ou não todos aqueles que deseja alcançar. A terapia requer tempo. Como processo que é requer tempo, um trabalho que permita chegar a resultados sustentados. Embora possa ser pautada por momentos densos e complexos, o evoluir desta parceria entre psicólogo e paciente é algo muito compensador.

A nossa saúde mental é a espinha dorsal do nosso bem-estar. Faça do seu autocuidado uma prioridade.

@ Teresa Alves, Psicóloga

As carências emocionais por trás da ingratidão

Pessoas que se dedicam aos outros e recebem como resposta alguns gestos de  ingratidão, tendem a apresentar um elevado sofrimento,  estados de raiva, culpa, tristeza, frustração, chegando a sentir-se incompetentes e responsáveis pelas falhas nas suas relações sociais.

Já se terá deparado, ao longo da sua vida, com atitudes menos amáveis por parte de alguém a quem teve a perceção de ter ajudado. É verdade que algumas pessoas são incapazes de demonstrar um mínimo gesto de agradecimento, amabilidade ou até de respeito por aqueles que de alguma forma se esforçaram por elas. É verdade também que não deveríamos esperar que os outros se mostrem agradecidos por qualquer gesto nosso, se ele foi feito de uma forma desinteressada. Mas de alguma forma, essa acaba por ser a nossa expetativa, e em sentido contrário, surge a frustração e a revolta, o desejo de vingança. Todos aqueles sentimentos destrutivos.

A ingratidão é um comportamento que gera um elevado desconforto a quem o sente, e longe de ser algo isolado, é com alguma frequência, que muitas pessoas se vão deparando com esta atitude, por vezes envolvida até na hostilidade, no seu dia-a-dia. Esta é sempre um posição incómoda e dolorosa para quem a sente.  Esta dinâmica nas relações tende ainda a gerar sentimentos de culpa, levando a um questionamento da pessoa sobre o porque de ter feito algo pelo outro. Mas talvez a culpa deva ser uma emoção a abandonar, quando procura entender algo muito simples: o problema não está em si. Com a ingratidão invalidam-se palavras, gestos e esforços de pessoas significativas à nossa volta. Pessoas que não valorizam, perdem, e a seu tempo, de forma inevitável, haverá um desinvestimento na relação e arriscam receber aquilo que eles próprios projetam, desconfiança, afastamento e hostilidade. 

Não permita que a ingratidão abale a sua estrutura, que destrua a sua capacidade de continuar a amar e a construir relações saudáveis.

Alguns estudos indicam uma série de carências, emocionais e sociais, que poderão estar na base destas dificuldades.

Quando falamos de um «estado», encontramos algumas fases de vida, em que a pessoa pode estar menos recetiva e menos disponível para receber gestos dos outros e por isso, não os aprecia e/ou valoriza. Quadros de depressão, estar num período de luto, estar a passar uma fase mais complexa, podem justificar esta postura temporária. Quando estamos perante uma «característica», então estaremos perante um comportamento  mais estável  e permanente. E aqui a carência poderá situar-se mais ao nível de certos padrões de personalidade, da falta de habilidades interpessoais, da própria cultura e padrões educacionais onde a pessoa se desenvolveu ou se insere, assim como as suas crenças e convicções, onde um padrão de amabilidade ou comportamento pró-sociais não são tão usuais ou considerados,  um défice relacional, baixa empatia, em que a pessoa que recebe determinados gestos usa uma lente diferente daquela que dá. Pessoas pouco empáticas analisam a situação com um maior distanciamento e frieza e possuem uma menor  Inteligência Emocional. Não alcançam a capacidade de apreciar, e receber gestos ou algum tipo de ajuda. Elas simplesmente esperam isso dos outros, algo que pode atingir estados mais disfuncionais ou até mesmo patológicos.

Embora este seja um comportamento passível de ser melhorado, cabe apenas a cada pessoa esta tomada de decisão e interesse na sua própria mudança. Aos outros, cabe apenas a decisão de continuar ou não a dirigir gestos de atenção a essa pessoa, com consciência de eventuais desconfortos gerados, avaliando o que a faz sentir. Com a certeza, porém, de que sendo um comportamento com o qual não se identifica, não terá de o replicar ou manter na sua vida relações que não lhe proporcionam conforto ou reciprocidade.  A quem sente esta dificuldade, é importante ter presente que comportamentos não reforçados, acabam por se extinguir.